A Rota da Seda da Unesco passa este ano por Valência. Normalmente, este é um conceito que associamos ao Oriente, mas há que considerar que durante a Baixa Idade Média a indústria sericícola desenvolveu-se na Europa Ocidental e teve em Itália e na Península Ibérica os seus principais centros produtores. O veludo, por exemplo, tecido de luxo por excelência, é um produto de génese europeia. Valência foi um dos pólos mais importantes de produção de tecidos de seda. Apenas para terem uma ideia, na segunda metade do século XV, uma cidade que contava com cerca de 70 mil habitantes, tinha mais de 2000 tecelões de veludo e 20% deles eram genoveses. A indústria da seda trouxe riqueza à cidade, permitindo que esta crescesse em esplendor, que se plasmou em obras arquitetónicas como a Lonja de la Seda, exemplar ímpar do gótico civil. São absolutamente arrebatadoras as colunas da sala da contratação, destinada às transacções mercantis.

Assumindo o papel de capital da Rota da Seda da Unesco, a cidade tem promovido uma série de iniciativas culturais em torno do tema da seda. Uma delas foi a realização do congresso “Rutas de la Seda en la Historia de España y Portugal”, no qual tive oportunidade de participar com uma comunicação sobre a indústria sericícola em Portugal nos séculos XIII a XVI (e da qual darei notícia de publicação no próximo ano).

Ora, esta ida a Valência permitiu-me visitar o fabuloso Museu e o Colegio da Arte Mayor de la Seda que abriu portas este ano. É um museu relativamente pequeno, mas que tem tudo o que se podia pedir: exposição artística e didática, arquivo e oficina. Na exposição, temos breves explicações sobre a criação dos bichos-da-seda, a extração e torsão dos fios, o seu tingimento e a tecelagem. Para ver, há também fragmentos de tecidos e peças de vestuário de várias épocas. Depois, numa pequena sala encontramos amostras de diferentes tipos de tecidos de seda: damasco, brocado, veludo, espolìn…  O arquivo, um dos mais importantes arquivos gremiais da Europa, está escrupulosamente organizado e tem alguns dos documentos mais emblemáticos expostos. Um deles, o “Privilegio Fundacional del Art de Velluters de Valencia” concedido por Fernando, o Católico, a 13 de Outubro 1479, foi apresentado durante o congresso e vai ser transcrito e publicado em breve.

Por fim, quando descemos as escadas do Colegio, podemos visitar uma pequena oficina demonstrativa de tecelagem. Um tear jacquard imponente toma conta  da sala, quase como se fosse um piano, e o tecelão move alternadamente cada um dos nove liços e faz deslizar as lançadeiras com diferentes cores para tecer um belo espolìn, compondo assim uma espécie de música que se faz com fios.

 

 

[Para quem estiver interessado em saber mais sobre a seda em Valência no século XV, o século de ouro da cidade, pode consultar a página Academia do Professor Germán Navarro, especialista no tema]

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