DSCF3078Ao contrário do que aconteceu com outros têxteis tradicionais, o bordado nunca deixou de estar na moda. Mas, ultimamente, tem-se assistido a uma tendência generalizada de defesa e promoção de  marcas regionais específicas. A redescoberta dos lenços dos namorados de Vila Verde há uns anos é talvez o exemplo mais mediático. Atrás dele (ou com ele) vimos crescer um interesse renovado nos vários bordados portugueses: o de Viana do Castelo, o de Guimarães, o da Terra de Sousa, o da Madeira, o de Castelo Branco. As técnicas estavam fixadas há muito e os produtos eram conhecidos e apreciados mas, mais do que nunca, passaram a ser designados especificamente pelo seu local de origem, funcionando como veículos de promoção da identidade dos municípios. As câmaras mobilizaram-se para obter a certificação. Claro que a reinvenção de tradições traz sempre riscos. Desde logo, o do próprio esgotamento estético. Já não se aguenta a louça, o guarda-chuva, o avental ou o paninho para os óculos com os motivos dos famosos lenços de Vila Verde (em versão estampada, claro, que isto do bordado a sério não é para todas as bolsas). Ainda assim, a promoção traz coisas muito boas: a divulgação e a preservação.

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Palacete de Santiago, Guimarães

Exemplo disso é a Câmara de Castelo Branco que, empenhada em obter a certificação do seu bordado, está a promover uma exposição de colchas bordadas de valor histórico (várias delas do século XVIII). Mas o melhor é que está a fazê-lo fora do espaço albicastrense e precisamente numa terra que também tem o seu próprio bordado: Guimarães. Sinergias destas são louváveis e querem-se mais. Mas vamos a questões práticas: a exposição tem lugar no Palacete de Santiago (uma dependência do Museu Alberto Sampaio, sito na Praça de Santiago). Termina já no próximo dia 29 de Fevereiro e infelizmente só funciona nos dias de semana.

O bordado de Castelo Branco tem características que o tornam especial e diferente dos bordados correntes: tem muito brilho e motivos pouco comuns na estética nacional. A intensidade das cores e da luz é conferida pelos fios de seda, cravados numa base de linho artesanal cru. Os desenhos são impressionantes: pássaros, árvores e flores –  todos com um perfil claramente exótico. Diz-se que estas colchas surgiram no século XVI e que os desenhos são de inspiração oriental. Se a influência veio directamente da Índia é um aspecto que a investigadora Ana Pires coloca em causa, avançando a hipótese de uma eventual influência do bordado inglês que, por sua vez, decalcava os padrões dos estampados indianos. A autora de parte dos textos do catálogo da exposição conclui que “quase tudo está por investigar no que diz respeito às Colchas de Castelo Branco”.

Independentemente dos detalhes da sua história, as colchas de Castelo Branco são peças que valem por si, pela originalidade da sua expressão artística. Ainda hoje se produzem estas belíssimas peças (por preços que variam entre os 15 e os 25 mil euros). O trabalho envolvido é moroso e algo complexo. Permito-me transcrever um excerto do catálogo sobre a vertente técnica: “O que distinguia a técnica deste bordado de outros (…) era a obrigatoriedade do uso de um bastidor de pé e a aprendizagem do “ponto largo” (…) Trata-se de um ponto em que a seda é estendida do direito, de lado a lado, cobrindo todo o desenho. Tal significa que os fios, não raras vezes, podem ter larguíssimos centímetros e, para que não fiquem soltos, sujeitos a danificarem-se com alguma facilidade, passam-se, por cima deles, outros fios, estes agora espaçados, ao longo dos quais se fazem as prisões. Os intervalos entre os segundos fios e o ritmo e padrão das prisões ajudam a texturar as grandes superfícies bordadas, que o brilho da seda reforça e amplifica.”

O resultado deste cruzamento de fios é uma explosão exuberante de cor e de luz. Vale a pena ir ver os panos da terra de Castelo Branco em terras de Guimarães. Até 29 de Fevereiro.

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