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Velo de uma ovelha bordaleira estendido. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

Velo de uma ovelha bordaleira estendido. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

Depois de feita a tosquia, o velo (conjunto de lã de uma ovelha ou carneiro) é submetido a um processo de selecção, através do qual se separam os diferentes tipos de lã de acordo com a posição que esta ocupa no corpo do animal. A mais valiosa é aquela procedente do lombo e das costas, mais espessa e mais limpa, enquanto a do ventre e a das patas é menos valorizada por ser mais curta e mais suja.

A documentação medieval portuguesa praticamente não deixou vestígios sobre este processo, embora não haja qualquer dúvida de que ele era efectuado. Entre os vários bens de Geraldo Afonso, rendeiro de uma propriedade agrícola do Mosteiro de Santa Cruz em 1367, contavam-se oito novelos de lã, seis “de cima” e dois “de borra”. Tais menções parecem distinguir claramente a lã proveniente das camadas superiores da das inferiores. Informações mais detalhadas encontram-se no Regimento da Fábrica dos Panos de 1573, no qual foram estabelecidos os critérios de selecção. Segundo este regimento, a lã deveria ser dividida em 4 categorias (“sortes”), de acordo com a sua posição no velo e consoante o tipo de pano a que se destinavam (mais ou menos fino):

COMO SE APARTARÃO E ESCOLHERÃO AS LANS ANTES DE SEREM LAVADAS, E TINTAS, E DA QUALIDADE DOS PANNOS, QUE SE HÃO DE FAZER DE CADA HUMA DELLAS

PRIMEIRAMENTE antes que as lans, de que se ouverem de fazer os pannos, sejão lavadas, e tintas, se apartarão as sortes dellas, para que as lans de cada sorte vão em seu lugar, e o vello de lã se extenderá, e escolherá em hum caniço, ou meza, e depois de escolhido se lhe cortarão as fraldas, as quaes se deitarão em ourelos, e não entrarão em pannos; e depois de tiradas as taes fraldas, se cortarão tres dedos ao comprido, e da largura do vello, e das lans desta primeira sorte se farão os pannos mais baixos dozenos: e cortando logo outros tres dedos mais acima pelo comprimento, e pela largura do mesmo véllo, será esta segunda sorte para os segundos pannos, que serão quatorzenos, e sezenos; e cortando depois a mais cadeira do véllo com todo o lombo até o pescoço, deixadas as ilhargas à parte, será esta terceira sorte de lans para a terceira sorte de pannos, que serão os dezochenos, e vintenos, e as ilhargas ficarão para a quarta sorte de pannos maiores, que são os vintedozenos e vintequatrenos: e porém sendo o vello tão fino, que possa servir em todas as sortes, em tal caso o deitarão no lugar que parecer melhor caberá, e aonde for necessário; e sendo tão basto, que não sirva mais que na primeira, ou na segunda sorte, se deitará em seu lugar, tendo em tudo respeito à fineza, e bondade da lã; e os pannos de todos os vellos não servirão senão na sorte primeira, e pannos mais baixos.

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As tais “fraldas” que , segundo o regimento de 1573, não se deveriam aproveitar para panos. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

[As fotos foram recolhidas aquando da Oficina “Tosquia de ovelhas – O Ciclo da Lã em Serralves”, organizada pelo projecto Saber Fazer, de Alice Bernardo.]

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