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No início de Dezembro rumei a Mértola para conhecer a Cooperativa Oficina de Tecelagem e acompanhar o processo de produção de uma manta de lã com padrão ‘montanhac’ que tinha encomendado. É aqui que ainda hoje se fazem as famosas mantas do Alentejo de que falei há alguns dias no blog. A lã é proveniente de ovelhas da região de raça merino ou campaniça e continua a ser cardada, fiada e tecida segundo processos artesanais. Fui muito bem recebida pela D. Helena, a tecedeira de serviço, que me mostrou alguns dos instrumentos com que lidam diariamente.

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O fio usado nas mantas de Mértola é todo fiado numa grande roda, accionada por manivela. A roda de fiar foi introduzida no Ocidente a partir do século XII, por influência do mundo islâmico. Permite fiar a uma velocidade três vezes superior à do clássico sistema de fuso e roca. Eu apenas tirei uma foto, porque a D. Helena não sabe fiar. Essa tarefa está a cargo de uma outra senhora, a D. Vitorina, sobre quem a Rosa Pomar já escreveu no seu blog ‘A Ervilha cor de rosa’. Para ver o artigo, basta clicar aqui. A Rosa, que se dedica à investigação sobre os têxteis tradicionais portugueses, tem ainda um outro site com vídeos sobre os processos de transformação da lã: chama-se Lã em tempo real e é imperdível.

Há três teares em funcionamento, mas na altura só dois tinham teia montada: num tecia-se uma pequena echarpe em lã escura e no outro estava a minha manta. Fiz um pequeno vídeo do processo e durante a filmagem percebeu-se que dois dos fios da teia estavam quebrados e foi necessário repará-los. Não há dúvidas de que tecer é um verdadeiro ofício de paciência.

Quando estive na Cooperativa, o espaço estava em obras, numa autêntica revolução. Mas foi graças a isso que pude ver de perto e tocar em algumas das peças que estavam a ser preparadas para exposição. Para além das tradicionais mantas de lã, há ainda cobertores aos quadrados, feitos numa fazenda mais fina do que a das mantas, e as lindíssimas colchas de carapulo. Estas colchas têm a teia em linho e a trama em lã e os motivos são obtidos através da técnica dos puxados. Para além de serem particularmente bonitas, conjugam a frescura do linho com o aconchego da lã, o que as torna perfeitas para serem usadas nos períodos de meia-estação. O belíssimo azul índigo dos cobertores e das colchas é obtido através do anil (indigofera tinctoria).

Agora com espaço renovado, esta Oficina merece mais do que nunca uma visita (fotos recentes tiradas por Diane Gazeau podem ser vistas aqui). Mas merece mais do que uma simples visita: merece uma encomenda. O trabalho destas tecedeiras está naturalmente dependente da procura, que infelizmente escasseia, pondo em causa a continuidade do projecto. Dir-me-ão que uma manta destas é muito cara e que não está ao alcance de qualquer um. É verdade. Mas também é verdade que é uma peça única, com uma tradição de séculos, feita unicamente com fibras naturais e de uma qualidade excepcional. A minha manta chegou-me a casa nos inícios de Janeiro e o velho edredon foi dispensado. A lã tem essa propriedade mágica de funcionar como regulador térmico e, ao contrário das fibras sintéticas, não faz transpirar. Ainda há duas semanas, a Rosa Pomar comentava no DN que “a lã é mais quente do que um fleece [polar], mais duradoura, mais segura.” Tudo razões que me levam a afirmar que adquirir uma manta alentejana é muito mais do que um simples capricho ou um luxo, é um verdadeiro investimento para a vida.

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