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Não é exagero dizer-se que a manta do Alentejo é provavelmente a mais antiga marca de origem, no panorama dos têxteis tradicionais portugueses, que sobreviveu até aos nossos dias. O seu fabrico terá começado por volta dos séculos XIII-XIV e manteve-se ininterruptamente até ao século XX, atravessando os sucessivos ciclos industriais.

A produção de mantas de lã está associada à prática da pastorícia, numa zona que se estende da Serra Algarvia até ao Baixo Alentejo, passando pelos concelhos de Mértola, Alcoutim, Castro Verde e Almodôvar. As iluminuras de um dos códices das Cantigas de Santa Maria de Afonso X, datável do século XIII, sugerem que existiriam, já em tempos medievais, dois sistemas decorativos diferentes: a manta de riscas, objecto do quotidiano, e a manta grave, com figuras geométricas, na sua variante ‘montanhac’. Fiz o exercício de justapor as imagens das iluminuras com fotos actuais de mantas alentejanas e é espantoso verificar a persistência dos desenhos.

Segundo Cláudio Torres, ambos os modelos apresentam ligações com princípios decorativos característicos de peças têxteis e cerâmicas das sociedades de pastores do Norte de África. De facto, olhando para o modelo ‘montanhac’ percebe-se de imediato a ‘marca’ islâmica. Algumas das peças cerâmicas encontradas nas escavações arqueológicas de Mértola apresentam os mesmos estilos decorativos das mantas tradicionais. Temos aqui o exemplo de um alguidar do período africano (s. XII-XIII), com uma barra ‘montanhac’. Mais uma vez, a justaposição não deixa dúvidas:

Nos documentos escritos, a menção mais antiga a uma “manta de Além Tejo” que encontrei até ao momento é de 1395 e consta de um testamento de um clérigo de Lisboa. As mantas podiam ser usadas como agasalho em contexto de trabalho agrícola ou pastoril, em viagem, colocadas no dorso do cavalo, ou então como simples coberturas para as camas. Na segunda metade do século XV, a sua produção disparou com a enorme demanda do mercado externo. Será provavelmente a semelhança estilística com padrões decorativos do Norte de África que explica o enorme sucesso que este artigo alcançou no comércio português com a Costa Ocidental Africana nos séculos XV e XVI. Na feitoria de Arguim, a manta do Alentejo constava do top five das mercadorias mais comercializadas. Foi também amplamente usada como moeda de troca no resgate de escravos na Guiné. Com 4 mantas, uma bacia de barbear e mais uns metros de pano (bordate) conseguia-se comprar um escravo de 20-25 anos. Aqui ficam alguns exemplos, transcritos do título do resgate dos escravos de 1508:

ANTT, Núcleo Antigo, nr. 888

(fl. 12) “Item aos treze dias de janeiro resgatou hum spravo de hydade de xx ate xxb anos por quimze dobras pagas em quatro mantas d’Alemtejo em dez dobras em duas avanas em duas dobras e mea em húa bacya de barbear em dobra e quarto em dozoyto covodos e meo de bordate em dobra e quarto e seu foro (…)”

(fl. 12v) “Item aos xxbj dias de janeiro resgatou húa sprava de hydade de quimze ate xbiij° anos por quimze dobras pagas em hum meo tascumte velho em duas dobras em hoyto avanas em dez dobras em húa manta d’Alemtejo em duas dobras e mea em hoyto covodos de bordate em mea dobra e seu foro (…)”

(fl. 14) “Item aos xxbiij dias de fevereiro resgatou hum spravo de hydade de xx ate xxb anos por quimze dobras pagas em duas bacyas de barbear em duas dobras e mea em húa manta d’Alemtejo em duas dobras e mea em sete vanas em hoyto dobras e tres quartos em húa bacya de migar em mea dobra em hoyto covodos de bordate em mea dobra em hum barete barberysco em hum quarto de dobra e seu foro (…)”

No seu Esmeraldo, Duarte Pacheco Pereira refere-se às mantas alentejanas como “cousa de pouca valia” e diz ainda que os lambéis norte-africanos se lhes assemelhavam, o que comprova a tese da origem cultural dos modelos decorativos:

“lanbens .s. huma Roupa feyha como mantas dalenteyo que tem huma banda vermelha e outra uerde e outra azul e outra branca as quases bandas som de largura de dou e tres dedos e esta Roupa se faz na cidade de ouram e en tenez do Reyno de bogea e asim em tunes e em outras partes de berberia e esta he a principal mercadoria porque se em axem Resguata o dito ouro (…)”

Também a Gil Vicente não escaparam. Na “Farsa do Juiz da Beira” fala-se de uma manta de Alentejo que se trazia na cama e que estava já “uzadinha”. No entanto, a referência mais intrigante talvez seja aquela do “Auto da Lusitânia”. Nesta peça, há uma personagem – o licenciado – que representa o próprio Gil Vicente (ou uma espécie de alter-ego) de quem se diz que era “da Pederneira/ neto dum tamborileiro/ sua mãe era parteira/ e seu pai era albardeiro./ E per razão/ ele foi já tecelão/ destas mantas d’Alentejo”. Ora, se Gil Vicente foi ou não tecelão não sabemos, mas vindo de um homem tão multifacetado não seria de estranhar. Pai do teatro português, autor da magnífica custódia de Belém e tecelão das belas mantas alentejanas? A confirmar-se, são três tesouros saídos de um só homem!

Mantas do Alentejo. Cooperativa Oficina Tecelagem de Mértola, 2014.

Felizmente, como eu dizia no início, a produção destas belas mantas perdurou ao longo dos tempos e era ainda bastante significativa no século XX. Era um objecto comum de qualquer casa alentejana e há postais e fotos antigas que mostram pastores que as envergavam penduradas ao ombro. Talvez por serem tão comuns não se lhes tenha atribuído o devido valor e seja hoje difícil encontrar peças destas bem conservadas. Há umas semanas, uma amiga minha conseguiu resgatar duas mantas que pertenciam à sua família (de Almodôvar), que corriam o risco de se deteriorarem completamente. Por isso, aqui fica o conselho: quem as tem, que as conserve. Para quem não tem, há esperança. Ainda hoje se fazem estas mantas segundo processos e modelos tradicionais na Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola com lã de ovelha merino e campaniça. Fui visitar este atelier há uns tempos e não resisti a encomendar uma manta destas para mim. Mas isso é assunto para outro artigo neste blog. Em breve.

Referências:

ADPM (2013). Moirais de Mértola. Paisagens Humanas do Baixo Guadiana. Mértola:Associação de Defesa do Património de Mértola.

Luzia, Â., Magalhães, I., & Torres, C. (1984). Mantas tradicionais do Baixo Alentejo. Mértola: Campo Arqueológico de Mértola / Câmara Municipal de Mértola.

Sequeira, J. (2012). Produção têxtil em Portugal nos finais da Idade Média. Dissertação de Doutoramento em História, Universidade do Porto e École des Hautes Études en Sciences Sociales, Porto/Paris.

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