Presépios em linho

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Até 23 de Dezembro, no Porto, na praça dos Poveiros, podem encontrar um simpático mercado de Natal com várias peças de artesanato. Chamaram-me a atenção os presépios da tecedeira Conceição Pereira, de Barcelos. São feitos a partir de retalhos de diferentes peças de linho que a própria teceu. Presépios da terra, portanto. Custam entre 8 a 10 euros e têm feito imenso sucesso (já vendeu mais de metade do stock).

A Dona Conceição  levou também um dos seus teares para a feira, onde estava a fazer uma bela toalha com técnica de puxados. Uma visita ao mercado é, por isso, uma oportunidade para ver de perto o trabalho de tecelagem. Não deixem de passar. Encontram-se por lá sugestões de prendas e decorações muito originais.

Cidade da seda, Valência 2016

A Rota da Seda da Unesco passa este ano por Valência. Normalmente, este é um conceito que associamos ao Oriente, mas há que considerar que durante a Baixa Idade Média a indústria sericícola desenvolveu-se na Europa Ocidental e teve em Itália e na Península Ibérica os seus principais centros produtores. O veludo, por exemplo, tecido de luxo por excelência, é um produto de génese europeia. Valência foi um dos pólos mais importantes de produção de tecidos de seda. Apenas para terem uma ideia, na segunda metade do século XV, uma cidade que contava com cerca de 70 mil habitantes, tinha mais de 2000 tecelões de veludo e 20% deles eram genoveses. A indústria da seda trouxe riqueza à cidade, permitindo que esta crescesse em esplendor, que se plasmou em obras arquitetónicas como a Lonja de la Seda, exemplar ímpar do gótico civil. São absolutamente arrebatadoras as colunas da sala da contratação, destinada às transacções mercantis.

Assumindo o papel de capital da Rota da Seda da Unesco, a cidade tem promovido uma série de iniciativas culturais em torno do tema da seda. Uma delas foi a realização do congresso “Rutas de la Seda en la Historia de España y Portugal”, no qual tive oportunidade de participar com uma comunicação sobre a indústria sericícola em Portugal nos séculos XIII a XVI (e da qual darei notícia de publicação no próximo ano).

Ora, esta ida a Valência permitiu-me visitar o fabuloso Museu e o Colegio da Arte Mayor de la Seda que abriu portas este ano. É um museu relativamente pequeno, mas que tem tudo o que se podia pedir: exposição artística e didática, arquivo e oficina. Na exposição, temos breves explicações sobre a criação dos bichos-da-seda, a extração e torsão dos fios, o seu tingimento e a tecelagem. Para ver, há também fragmentos de tecidos e peças de vestuário de várias épocas. Depois, numa pequena sala encontramos amostras de diferentes tipos de tecidos de seda: damasco, brocado, veludo, espolìn…  O arquivo, um dos mais importantes arquivos gremiais da Europa, está escrupulosamente organizado e tem alguns dos documentos mais emblemáticos expostos. Um deles, o “Privilegio Fundacional del Art de Velluters de Valencia” concedido por Fernando, o Católico, a 13 de Outubro 1479, foi apresentado durante o congresso e vai ser transcrito e publicado em breve.

Por fim, quando descemos as escadas do Colegio, podemos visitar uma pequena oficina demonstrativa de tecelagem. Um tear jacquard imponente toma conta  da sala, quase como se fosse um piano, e o tecelão move alternadamente cada um dos nove liços e faz deslizar as lançadeiras com diferentes cores para tecer um belo espolìn, compondo assim uma espécie de música que se faz com fios.

 

 

[Para quem estiver interessado em saber mais sobre a seda em Valência no século XV, o século de ouro da cidade, pode consultar a página Academia do Professor Germán Navarro, especialista no tema]

Bordado de Castelo Branco… em Guimarães

DSCF3078Ao contrário do que aconteceu com outros têxteis tradicionais, o bordado nunca deixou de estar na moda. Mas, ultimamente, tem-se assistido a uma tendência generalizada de defesa e promoção de  marcas regionais específicas. A redescoberta dos lenços dos namorados de Vila Verde há uns anos é talvez o exemplo mais mediático. Atrás dele (ou com ele) vimos crescer um interesse renovado nos vários bordados portugueses: o de Viana do Castelo, o de Guimarães, o da Terra de Sousa, o da Madeira, o de Castelo Branco. As técnicas estavam fixadas há muito e os produtos eram conhecidos e apreciados mas, mais do que nunca, passaram a ser designados especificamente pelo seu local de origem, funcionando como veículos de promoção da identidade dos municípios. As câmaras mobilizaram-se para obter a certificação. Claro que a reinvenção de tradições traz sempre riscos. Desde logo, o do próprio esgotamento estético. Já não se aguenta a louça, o guarda-chuva, o avental ou o paninho para os óculos com os motivos dos famosos lenços de Vila Verde (em versão estampada, claro, que isto do bordado a sério não é para todas as bolsas). Ainda assim, a promoção traz coisas muito boas: a divulgação e a preservação.

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Palacete de Santiago, Guimarães

Exemplo disso é a Câmara de Castelo Branco que, empenhada em obter a certificação do seu bordado, está a promover uma exposição de colchas bordadas de valor histórico (várias delas do século XVIII). Mas o melhor é que está a fazê-lo fora do espaço albicastrense e precisamente numa terra que também tem o seu próprio bordado: Guimarães. Sinergias destas são louváveis e querem-se mais. Mas vamos a questões práticas: a exposição tem lugar no Palacete de Santiago (uma dependência do Museu Alberto Sampaio, sito na Praça de Santiago). Termina já no próximo dia 29 de Fevereiro e infelizmente só funciona nos dias de semana.

O bordado de Castelo Branco tem características que o tornam especial e diferente dos bordados correntes: tem muito brilho e motivos pouco comuns na estética nacional. A intensidade das cores e da luz é conferida pelos fios de seda, cravados numa base de linho artesanal cru. Os desenhos são impressionantes: pássaros, árvores e flores –  todos com um perfil claramente exótico. Diz-se que estas colchas surgiram no século XVI e que os desenhos são de inspiração oriental. Se a influência veio directamente da Índia é um aspecto que a investigadora Ana Pires coloca em causa, avançando a hipótese de uma eventual influência do bordado inglês que, por sua vez, decalcava os padrões dos estampados indianos. A autora de parte dos textos do catálogo da exposição conclui que “quase tudo está por investigar no que diz respeito às Colchas de Castelo Branco”.

Independentemente dos detalhes da sua história, as colchas de Castelo Branco são peças que valem por si, pela originalidade da sua expressão artística. Ainda hoje se produzem estas belíssimas peças (por preços que variam entre os 15 e os 25 mil euros). O trabalho envolvido é moroso e algo complexo. Permito-me transcrever um excerto do catálogo sobre a vertente técnica: “O que distinguia a técnica deste bordado de outros (…) era a obrigatoriedade do uso de um bastidor de pé e a aprendizagem do “ponto largo” (…) Trata-se de um ponto em que a seda é estendida do direito, de lado a lado, cobrindo todo o desenho. Tal significa que os fios, não raras vezes, podem ter larguíssimos centímetros e, para que não fiquem soltos, sujeitos a danificarem-se com alguma facilidade, passam-se, por cima deles, outros fios, estes agora espaçados, ao longo dos quais se fazem as prisões. Os intervalos entre os segundos fios e o ritmo e padrão das prisões ajudam a texturar as grandes superfícies bordadas, que o brilho da seda reforça e amplifica.”

O resultado deste cruzamento de fios é uma explosão exuberante de cor e de luz. Vale a pena ir ver os panos da terra de Castelo Branco em terras de Guimarães. Até 29 de Fevereiro.

A fiar e a tecer ganha a mulher de comer

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No próximo dia 17 de Dezembro vou estar em Lisboa a falar sobre mulheres que fiavam e teciam no Portugal medieval. Passo a passo, irei analisar a presença feminina em cada uma das fases da indústria têxtil, com o recurso a excertos de documentos medievais, iluminuras e alguns vídeos e fotos dos nossos dias que nos ajudam a perceber melhor algumas das técnicas ancestrais. Pelo meio, irei ainda falar de pequenos episódios ocorridos há mais de 500 anos, como o da mulher que se serviu de uma roca para agredir a vizinha ou o da triste história de Catarina, que espetou um fuso na testa e acabaria por falecer à conta disso…

A conferência está integrada no “Seminário Permanente sobre As Mulheres na História Global”, do CHAM (Centro de História de Aquém e de Além Mar). É às 18 horas, no edíficio ID da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Sala Multiusos 2, Piso 4)

Entrada livre.

Lã e linho na 36ª Feira Agrícola do Vale do Sousa

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Cebolas, melões casca de carvalho, vinho verde, broa e pão-de-ló são alguns dos produtos em destaque na Agrival, patente em Penafiel até ao próximo domingo, dia 30. É uma excelente mostra dos produtos tradicionais da região, nos quais se incluem os têxteis de tipo artesanal. Quem quiser, pode apreciar as tecedeiras de mantas a trabalhar no tear, a Dona Ana a cardar e a fiar a lã e ainda ver alguns dos instrumentos de preparação do linho.

As mantas, os tapetes, as colchas e as toalhas são lindíssimos e de uma perfeição notável. Desengane-se quem pensa que são inacessíveis. Pode-se comprar um tapete de tiras por 8 euros ou um de lã por 30. Um cobertor de papa não vai além dos 150 e um corre mesa em tomentos (para quem não sabe é a fibra mais áspera do linho) fica por apenas 35. Vejo cada vez mais gente interessada nas técnicas artesanais e isso é bom, mas não basta. É preciso apoiar os artesãos, comprando os seus produtos. Para além de se contribuir para o comércio sustentável, é a melhor das alternativas aos edredons sintéticos e às toalhas estampadas sem graça nenhuma.

Link da feira aqui: http://agrival-penafiel.blogspot.pt/

Apartar as lãs

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Velo de uma ovelha bordaleira estendido. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

Velo de uma ovelha bordaleira estendido. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

Depois de feita a tosquia, o velo (conjunto de lã de uma ovelha ou carneiro) é submetido a um processo de selecção, através do qual se separam os diferentes tipos de lã de acordo com a posição que esta ocupa no corpo do animal. A mais valiosa é aquela procedente do lombo e das costas, mais espessa e mais limpa, enquanto a do ventre e a das patas é menos valorizada por ser mais curta e mais suja.

A documentação medieval portuguesa praticamente não deixou vestígios sobre este processo, embora não haja qualquer dúvida de que ele era efectuado. Entre os vários bens de Geraldo Afonso, rendeiro de uma propriedade agrícola do Mosteiro de Santa Cruz em 1367, contavam-se oito novelos de lã, seis “de cima” e dois “de borra”. Tais menções parecem distinguir claramente a lã proveniente das camadas superiores da das inferiores. Informações mais detalhadas encontram-se no Regimento da Fábrica dos Panos de 1573, no qual foram estabelecidos os critérios de selecção. Segundo este regimento, a lã deveria ser dividida em 4 categorias (“sortes”), de acordo com a sua posição no velo e consoante o tipo de pano a que se destinavam (mais ou menos fino):

COMO SE APARTARÃO E ESCOLHERÃO AS LANS ANTES DE SEREM LAVADAS, E TINTAS, E DA QUALIDADE DOS PANNOS, QUE SE HÃO DE FAZER DE CADA HUMA DELLAS

PRIMEIRAMENTE antes que as lans, de que se ouverem de fazer os pannos, sejão lavadas, e tintas, se apartarão as sortes dellas, para que as lans de cada sorte vão em seu lugar, e o vello de lã se extenderá, e escolherá em hum caniço, ou meza, e depois de escolhido se lhe cortarão as fraldas, as quaes se deitarão em ourelos, e não entrarão em pannos; e depois de tiradas as taes fraldas, se cortarão tres dedos ao comprido, e da largura do vello, e das lans desta primeira sorte se farão os pannos mais baixos dozenos: e cortando logo outros tres dedos mais acima pelo comprimento, e pela largura do mesmo véllo, será esta segunda sorte para os segundos pannos, que serão quatorzenos, e sezenos; e cortando depois a mais cadeira do véllo com todo o lombo até o pescoço, deixadas as ilhargas à parte, será esta terceira sorte de lans para a terceira sorte de pannos, que serão os dezochenos, e vintenos, e as ilhargas ficarão para a quarta sorte de pannos maiores, que são os vintedozenos e vintequatrenos: e porém sendo o vello tão fino, que possa servir em todas as sortes, em tal caso o deitarão no lugar que parecer melhor caberá, e aonde for necessário; e sendo tão basto, que não sirva mais que na primeira, ou na segunda sorte, se deitará em seu lugar, tendo em tudo respeito à fineza, e bondade da lã; e os pannos de todos os vellos não servirão senão na sorte primeira, e pannos mais baixos.

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As tais “fraldas” que , segundo o regimento de 1573, não se deveriam aproveitar para panos. Maio de 2015 (Programa Saber Fazer/ Fundação Serralves)

[As fotos foram recolhidas aquando da Oficina “Tosquia de ovelhas – O Ciclo da Lã em Serralves”, organizada pelo projecto Saber Fazer, de Alice Bernardo.]

Fiar no caneleiro

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aqui falei da D. Ana e dos seus trabalhos em lã. Encontrei-a na feira de S. Martinho, em Penafiel, sentada a cardar e a fiar, rodeada de grandes sacos cheios de lã branquinha. O que me despertou a atenção foi o instrumento que usava para fiar. Não era um fuso nem tão pouco uma roda: era um simples caneleiro.

Tradicionalmente, o caneleiro é usado para enrolar o fio nas canelas que depois são colocadas nas lançadeiras e usadas no tear para passar a trama. Há dois tipos de caneleiros em Portugal: o mais simples, como este da D. Ana, constituído por um eixo em ferro ou em madeira, com uma das extremidades aguçada para fixação da canela, que gira mediante o accionamento de um volante; e outro, mais sofisticado, que se assemelha muito às rodas de fiar de manivela (é apenas mais pequeno e, por isso, muita gente os confunde com rodas de fiar).

A verdade é que, apesar de não terem sido criados para esse fim, não é assim tão raro ver estes caneleiros do segundo tipo serem usados na fiação. No Norte do país, são mais comuns os caneleiros de tipo um, como o da D. Ana. Nunca me passou pela cabeça que um instrumento tão simples e rudimentar pudesse ser eficaz na fiação, mas a D. Ana tirou-me as dúvidas todas quando a vi fiar a alta velocidade. O fio que dali resulta é, naturalmente, pouco torcido, de um só cabo, irregular e de aspecto pastoso. Mas serve bem os propósitos dos trabalhos em que é aplicado. A D. Ana tece uma espécie de “cobertores de papa”, semelhantes àqueles tradicionais da Beira Baixa e do Alto Alentejo. Digo semelhantes porque a urdidura é feita em algodão e não em lã. Têm aquele aspecto peludo porque são submetidos a uma operação de cardagem já depois de saírem do tear. Ainda não há muito tempo estes eram os cobertores de eleição para as pessoas se aquecerem nos Invernos rigorosos. A minha mãe lembra-se de trazer um na cama e de, pela manhã, se aperceber de que a parte exterior estava molhada. A humidade da respiração condensava-se e o cobertor actuava como isolante.

Para além dos cobertores de papa, este fio serve também para fazer colchas e tapetes com a técnica dos puxados, tirando partido dos bonitos contrastes que as cores naturais da lã proporcionam. Perguntei ainda à Dona Ana se não sabia fiar de outra forma. Disse-me que sim e que até tinha um fuso, mas que não se “ajeitava” com aquilo e que era muito “demorado”.

O Pano da Terra… agora em livro

O resultado de alguns anos dedicados à investigação sobre a indústria têxtil medieval portuguesa tomou finalmente forma de livro e já está nas livrarias. O lançamento será no próximo dia 23 de Fevereiro, às 18.30, na Sala de Reuniões da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Todos os interessados serão bem-vindos. O convite não o menciona, mas teremos um Porto de honra no final!

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Quem quiser espreitar o índice pode fazê-lo no meu perfil do Academia.

O livro encontra-se à venda on-line nos seguintes sites:

Loja da UP

Wook

Bertrand

Também estará à venda no dia do lançamento, sob a responsabilidade da Livraria da AEFLUP (que merece uma visita, agora que foi renovada!)

Os cardadores de Vale de Ílhavo

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Cardadores de Vale de Ílhavo

Quem viu na televisão as reportagens sobre os cardadores de Vale de Ílhavo, foliões de Carnaval? Eu confesso que nunca tinha visto e achei que era uma tradição muito peculiar. Estes cardadores são bandos de homens mascarados que percorrem as ruas no Carnaval, saltando e dançando. Para além disso, empunham duas cardas com as quais tentam “cardar” as moças com quem se vão cruzando. Quando conseguem cercar uma, passam-lhe as cardas e repetem numa voz estridente “Ai tanta lã, ai tanta lã!”.

Normalmente, a atenção recai sobre as máscaras coloridas e muito elaboradas, feitas com lã, penas de aves e uma série de outros materiais. Mas o que mais me chamou a atenção foram as cardas. Para quem não sabe, são umas tábuas com um cabo, que pode ser revestido a couro, nas quais estão presos centenas de pequenos dentes metálicos finos, curtos e aguçados. Assumem a forma de uma espécie de escova e são sempre usadas aos pares. A fibra da lã é colocada entre duas cardas que são deslizadas em sentidos opostos. Através desta operação, a lã fica convenientemente escovada e transforma-se numa pasta homogénea que posteriormente é fiada.

As cardas destes foliões de Ílhavo não são verdadeiras, pois não têm os tais dentes que poderiam magoar seriamente as suas vítimas. Mas de onde virá esta curiosa tradição? Todos os entrevistados afirmaram que a prática remonta a finais do século XIX, mas desconhecem a sua origem. Os processos de evolução das manifestações culturais são autênticos palimpsestos, o que torna difícil identificar as diferentes influências. Quando vi as imagens na televisão lembrei-me logo das procissões do Corpo de Deus da Idade Média, que se realizavam em todas a vilas e cidades da Cristandade. O único regimento medieval português da procissão do Corpo de Deus que se conhece é de Évora (1480-90). Através dele, ficamos a conhecer toda a ordem processional, que era uma verdadeira manifestação de poder cívico. As principais profissões da cidade estavam aí representadas: a encabeçar estavam as figuras religiosas, seguidas dos oficiais da câmara, depois dos comerciantes e finalmente de vários grupos socioprofissionais. Terminava com os carniceiros, que seguiam a cavalo e levavam consigo “um touro por cordas”. Na 7ª posição na hierarquia dos mesteirais, surgiam os “tecelães, penteadores de lã e cardadores”. Agrupados sob a bandeira de São Bartolomeu, deveriam levar “um diabo preso por uma cadeia”. Embora no documento não seja referido, é possível que também levassem consigo os instrumentos profissionais que os identificavam. Voltando aos foliões de Ílhavo, não deixa de ser surpreendente constatar como as memórias de práticas ancestrais permanecem vivas e se diluem numa manifestação que tem tanto de exótico como de intrigante.

Os cardadores eram quase sempre homens e na documentação medieval que compulsei nunca encontrei nenhuma referência a cardadeiras. Mas o curioso é que em quase todas as iluminuras ocidentais nas quais estão representadas cenas de cardagem, são sempre figuras femininas que a desempenham. Outro dado revelador é o de no terceiro quartel do século XV se registar a exportação de Valência para Portugal de vários pares de “cardas de dona”, ou seja, específicas para serem utilizadas por mulheres. Embora até possa parecê-lo, cardar não é tarefa fácil e requer algum esforço físico. É possível que estas cardas femininas fossem mais pequenas do que as cardas comuns, que tinham cerca de 30 cm por 15, sendo por isso mais fáceis de “manobrar”.

Tal como muitas outras técnicas têxteis, também a da cardagem foi uma inovação medieval. O mais antigo método de desenredar a lã era realizado através de um pente, composto por fios metálicos longos e aguçados. As lãs mais longas eram penteadas, o que eliminava as fibras mais curtas e dispunha paralelamente as mais compridas, possibilitando assim a fiação de fios finos, lisos e bastante resistentes. Mas com o pente não se conseguia aproveitar as fibras mais curtas. Foi então assim que surgiu a técnica da cardagem, que permitia desenriçar as lãs, alinhando as fibras, sem que as mais curtas fossem removidas. Isto conduzia a um menor desperdício de matéria-prima e permitia a mistura de diferentes tipos de lã, ao mesmo tempo que implicava menos custos na preparação da fibra.

Ambas as técnicas continuaram a existir, com aplicações diferentes. Por exemplo, para produzir os fios da teia recorria-se à penteação que assegurava uma maior solidez da fibra, enquanto na trama se aplicavam fios provenientes de lã cardada. Isso explica a referência simultânea a penteadores e a cardadores no regimento das procissões de Évora.

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Penteação e cardagem da lã. De claris mulieribus (trad.), Giovanni Boccaccio. França, 1403. © Bibliothèque Nationale de France (Ms. français 12420, fl. 71). A mulher da esquerda penteia e a da direita carda.

Em Portugal, encontra-se uma das referências documentais mais antigas à realização da cardagem na Europa. Trata-se de uma passagem comum aos Foros de Castelo Bom, Castelo Rodrigo e Alfaiates, do século XIII. Uma vez introduzida, a cardagem acabaria por triunfar na indústria lanígera europeia e perdurar ao longo dos séculos. Ainda hoje se carda de Norte a Sul do país. Quando fui a Mértola, a tecedeira D. Helena fez-me uma pequena demonstração do processo, mas disse-me que na região era costume ser uma actividade masculina e que hoje em dia é cada vez mais difícil arranjar quem o faça. Em Penafiel, no Norte, a D. Ana carda, fia e tece a sua lã. Tem um par de cardas já velhinhas e revestiu os cabos com uma espécie de esponja para não se magoar. “É que assim não ganho calos como os outros!”, diz.

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D. Ana carda a lã para fazer cobertores. Os cabos das cardas estão revestidos com esponja. Penafiel, Novembro de 2014.

Uma visita aos teares de Mértola

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No início de Dezembro rumei a Mértola para conhecer a Cooperativa Oficina de Tecelagem e acompanhar o processo de produção de uma manta de lã com padrão ‘montanhac’ que tinha encomendado. É aqui que ainda hoje se fazem as famosas mantas do Alentejo de que falei há alguns dias no blog. A lã é proveniente de ovelhas da região de raça merino ou campaniça e continua a ser cardada, fiada e tecida segundo processos artesanais. Fui muito bem recebida pela D. Helena, a tecedeira de serviço, que me mostrou alguns dos instrumentos com que lidam diariamente.

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O fio usado nas mantas de Mértola é todo fiado numa grande roda, accionada por manivela. A roda de fiar foi introduzida no Ocidente a partir do século XII, por influência do mundo islâmico. Permite fiar a uma velocidade três vezes superior à do clássico sistema de fuso e roca. Eu apenas tirei uma foto, porque a D. Helena não sabe fiar. Essa tarefa está a cargo de uma outra senhora, a D. Vitorina, sobre quem a Rosa Pomar já escreveu no seu blog ‘A Ervilha cor de rosa’. Para ver o artigo, basta clicar aqui. A Rosa, que se dedica à investigação sobre os têxteis tradicionais portugueses, tem ainda um outro site com vídeos sobre os processos de transformação da lã: chama-se Lã em tempo real e é imperdível.

Há três teares em funcionamento, mas na altura só dois tinham teia montada: num tecia-se uma pequena echarpe em lã escura e no outro estava a minha manta. Fiz um pequeno vídeo do processo e durante a filmagem percebeu-se que dois dos fios da teia estavam quebrados e foi necessário repará-los. Não há dúvidas de que tecer é um verdadeiro ofício de paciência.

Quando estive na Cooperativa, o espaço estava em obras, numa autêntica revolução. Mas foi graças a isso que pude ver de perto e tocar em algumas das peças que estavam a ser preparadas para exposição. Para além das tradicionais mantas de lã, há ainda cobertores aos quadrados, feitos numa fazenda mais fina do que a das mantas, e as lindíssimas colchas de carapulo. Estas colchas têm a teia em linho e a trama em lã e os motivos são obtidos através da técnica dos puxados. Para além de serem particularmente bonitas, conjugam a frescura do linho com o aconchego da lã, o que as torna perfeitas para serem usadas nos períodos de meia-estação. O belíssimo azul índigo dos cobertores e das colchas é obtido através do anil (indigofera tinctoria).

Agora com espaço renovado, esta Oficina merece mais do que nunca uma visita (fotos recentes tiradas por Diane Gazeau podem ser vistas aqui). Mas merece mais do que uma simples visita: merece uma encomenda. O trabalho destas tecedeiras está naturalmente dependente da procura, que infelizmente escasseia, pondo em causa a continuidade do projecto. Dir-me-ão que uma manta destas é muito cara e que não está ao alcance de qualquer um. É verdade. Mas também é verdade que é uma peça única, com uma tradição de séculos, feita unicamente com fibras naturais e de uma qualidade excepcional. A minha manta chegou-me a casa nos inícios de Janeiro e o velho edredon foi dispensado. A lã tem essa propriedade mágica de funcionar como regulador térmico e, ao contrário das fibras sintéticas, não faz transpirar. Ainda há duas semanas, a Rosa Pomar comentava no DN que “a lã é mais quente do que um fleece [polar], mais duradoura, mais segura.” Tudo razões que me levam a afirmar que adquirir uma manta alentejana é muito mais do que um simples capricho ou um luxo, é um verdadeiro investimento para a vida.

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